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Grupo de amantes de xadrez. De uma forma civilizada trocamos as nossas opiniões, sobre livros, histórias passadas em frente ao tabuleiro (boas ou más), etc.
 
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BOBBY FISCHER..

 
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Autor Mensagem
Arlindo Rodrigues Vieira
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Registo: 09 Jan 2007
Mensagens: 10

MensagemColocada: Sex Jan 18, 2008 15:57    Assunto: BOBBY FISCHER.. Responder com Citação

Para ver um pequeno filme feito por mim visitar http://existenteinstante.blogspot.com/

Aquietou-se de vez uma das almas mais belamente inquietas da história do xadrez.

Morreu esse extraordinário campeão, esse fabuloso mágico das 64 casas do tabuleiro. Desapareceu, embora algo do xadrez, de um certo xadrez tenha morrido com ele em 72. Agora só a memória e as suas jóias - partidas de brilho refulgente, de cristalinidade pura, de quase poesia escaquística.

De momento nada mais interessa, nem histórias castiças, nem pormenores mais ou menos sórdidos. Apenas e só um lutador de fibra, um polémico de génio, e sobretudo um amor ao xadrez como poucos, dos tais, que de tanto amar se afastou da coisa amada. E se ainda não chegasse, esse legado imortal das suas partidas enquanto existir xadrez.
Aqui na minha frente um monte de livros de e sobre Bobby. Folhei-os, viro páginas como suave brisa levanta folha morta e, instintivamente, memórias de adolescente e jovem são penetradas por essas páginas. Da impossibilidade de algum dia alguém jogar xadrez assim, da beleza intensa, da estética artística dessa grande arte que é mover umas peças esquisitas nas 64 casas claro - escuras de um tabuleiro.

Pego no meu melhor tabuleiro, vou buscar as minhas melhores peças e ao som de um Requiem, que pode ser umas “Lachrime” , reproduzo algumas dessas jóias, quase diademas em cabeça de rainha, e viajo de Brooklin a Reykjavik, acompanho menino encantado esse percurso, esse movimento perpétuo de bispos, cavalos , torres peões, reis e damas.
Aquietou-se uma das almas mais geniais das 64 casas. Estou comovido a leste de mim, como sempre fico quando parte um génio. Profundamente triste, quase como “chuva de limão na minha alma”.

No entanto…alguém ficou satisfeito! Quêm? Quem poderia ser?! Mikhail Tal, que na 5ª Feira recebeu Bobby no céu de Caissa com aquele largo sorriso : Estava a ver que nunca mais chegavas, Bobby?!” “ Um bocadinho farto de jogar com o Petrosian, o Bota, deves concordar?! Bobby baixou os olhos com timidez, Tal riu, e num momento ambos recordaram essa imagem linda de Zagreb 59. Depois…depois foi apanhar o primeiro tabuleiro que lhes caiu nas mãos e toca a jogar o match para sempre inacabado!
Que descanses em Paz, Bobby.
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Xequemate
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Registo: 27 Abr 2006
Mensagens: 259
Local/Origem: Alpiarça/Santarém

MensagemColocada: Sex Jan 18, 2008 18:21    Assunto: Responder com Citação

Parabens pelo filme. A musica encaixa na perfeição. Gostei da montagem e da sequência de fotografias (raras) que passaram.

Antonio Russo
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António Castanheira



Registo: 28 Abr 2006
Mensagens: 47

MensagemColocada: Sáb Jan 19, 2008 3:06    Assunto: Responder com Citação

A minha proposta ao António Russo, caso o A.Vieira concorde:

- Tornar este video inamovível em lugar de destaque no banner do LusoXadrez!

Era este o video que deveria ter sido hoje exibido na integra em todos os noticiários televisivos dos locais em que existisse civilização, este video e não umas imagens de quem se tornou um espectro, uma barba desleixada com umas roupas de recurso que, aliadas a frases choque sobre o anti-semitismo e o 11-09, apelam ao patético e ao mórbido, na linguagem bárbara que os meios de comunicação social acham apropriada para descrever a nossa sociedade global.

Embora estivesse já na obscuridade há mais de 30 anos, apagou-se ontem definitivamente a estrela mais brilhante que o xadrez já conheceu.

Se Karpov a partir de 1980, Kasparov a partir de 1986 ou se qualquer dos jogadores actualmente classificados no top 20 mundial se possam eventualmente considerar mais fortes e completos do que ele alguma vez o foi, esse facto não invalida que, em mais nenhuma outra época, um outro jogador se tenha destacado tanto dos seus contemporâneos como o fez Bobby Fischer e com um brilho tão intenso (ex: 19 vitórias seguidas, 0 empates, 0 derrotas, em jogos contra a maior elite mundial).

O seu precurso foi singular e jamais será repetido:
Uma aprendizagem praticamente auto-didacta desde o ínicio, num país e num meio onde o xadrez não era propriamente muito popular e onde apenas estavam disponíveis livros que não iam muito além da iniciação, encomendadndo e lendo edições de xadrez em russo para, unicamente com a sua mente e um tabuleiro de bolso, se opôr sozinho (sem assistentes) a toda uma classe de jogadores apoiados numa escola e numa tradição com mais de 50 anos.

O filme do Arlindo é notável, não só pela recolha de fotos (algumas muito raras, outras que desconhecia) mas principalmente pelo enquadramento musical escolhido:
Uma primeira parte em que a flauta ilustra a história encantada da elevação a génio de um pequeno rapaz, uma segunda parte em que acompanha em tom grave e pesado o génio que destruiu o homem e uma terceira parte de paz e de homenagem a tudo ao que de melhor ambos nos deixaram.

Há acontecimentos que se sucedem como se fizessem parte de um argumento pré-determinado:
- Em 2006 comemoraram-se 50 anos sobre a denominada "partida do século" (Byrne - Fischer), levando-nos a revisitar uma jóia artística;
- Neste Outono, são publicadas notícias sobre o estado de saúde debilitado de Fischer enquanto que, em Portugal, era editado "A guerra de Bobby Fischer".

Os comentários que fiz a esta obra num post recente demonstram o contacto que, à semelhança de outros, estabeleci durante uns 15 dias com o singular mundo de Fischer.

Bobby foi um jovem generoso e gentil mas totalmente anti-social - seria de certeza incapaz de se integrar num qualquer organismo como, por ex., o exército, um escritório ou uma fábrica, atendendo também às perturbações psicológicas com que se começou a defrontar, sendo provável que terminasse os seus dias muito mais prematuramente, à margem da sociedade, como acontece a milhares de outros auto-excluídos e renegados.

O xadrez foi o seu refúgio e o seu passaporte para um percurso mais "normal" neste planeta, um anjo negro que lhe conferiu uma capacidade jamais atingida em troca de uma ambição, de uma obsessão, de uma busca incessante pela vitória que, em última análise, o veio a consumir numa imolação conjunta com o génio xadrezístico que albergava e que deixa de ter razão para existir após a conquista do título mundial.

O xadrez estava em Bobby e Bobby era xadrez, por isso, embora talvez ao princípio tivesse consciência da sua "escravatura", não poderia deixar de amar uma parte de si, como poderia fazê-lo?

O seu xadrez, antes de ser espectacular, é sobretudo profundo, orienta-se em linhas de força que não são de todo visíveis e emerge à superficie em lances insólitos, inesperados e poderosissímos que, mais do que destruir a posição contrária, fazem-na desmoronar pela impossibilidade de escolher linhas críticas que estão impedidas por multiplas combinações, de súbito, óbvias e cristalinas.

De "A guerra de Bobby Fischer":
"O esplendor do xadrez de Fischer reside na sua limpidez, na sua simplicidade: se os seus lances fossem notas musicais, estas seriam tocadas não para impressionar a assitência, não para agradar a si próprio, não para alcançar a beleza, embora possuissem a sua beleza - aqueles emanam da lógica do tabuleiro e do sentido de harmonia profundo, incomensurável, de Fischer".

Há cerca de 35 anos a humanidade perdeu um homem, ontem o xadrez perdeu a corporização do seu maior génio de sempre.

Saibamos todos honrá-los a ambos, no que ambos nos deixaram de melhor.

P.S: Aproveito para agradecer as palavras do Arlindo Vieira e do António Russo relativamente às palavras que escrevi no fórum sobre D.Bronstein.

António Castanheira
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