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[ Lusoxadrez ] Grupo de amantes de xadrez. De uma forma civilizada trocamos as nossas opiniões, sobre livros, histórias passadas em frente ao tabuleiro (boas ou más), etc.
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Mensagem |
António Castanheira
Registo: 28 Abr 2006 Mensagens: 47
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Colocada: Qua Dez 05, 2007 1:32 Assunto: Evocação de um Ídolo - David Bronstein |
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"A vida não é como o xadrez porque, nos limites do tabuleiro, existem quatro muros que limitam os movimentos das peças e que impedem que um rei acossado possa fugir.
Pelo contrário, na nossa vida não há muros, não há limites..."
David Bronstein, Lisboa, 1997
Quem conhece os jogos de David Bronstein não pode deixar de se surpreender com a frase que acabou de ler:
Se Bronstein considerava que havia limites ao que se pode fazer num tabuleiro e realizou sobre o mesmo algumas das maiores obras de arte xadrezística que se conhecem, imaginem o quanto ele gostava da vida para dizer uma frase como aquela...
É precisamente a 5 de Dezembro de 2006 que em Minsk (Bielorússia) desaparece fisicamente um talento do xadrez, do desporto, da arte, da cultura e das relações humanas, um talento chamado DAVID Ionovich BRONSTEIN (1924-2006), que me motiva a escrever este texto por duas razões:
1º- Dar a conhecer melhor esta personalidade única, não só a partir do contacto pessoal que tive com ele mas também fazendo uma súmula de elementos sobre si dispersos pelas fontes mais diversas - livros, revistas, internet,notas enviadas por amigos, etc - elementos talvez nunca antes reunidos e analisados em conjunto, pelo menos na língua portuguesa.
2º - Fazer a justa homenagem que há muito lhe devo.
EVOCAÇÃO DE UM ÍDOLO
- DAvID BRONSTEIN -
UMA REFERÊNCIA MAIOR DE ARTE E CULTURA, UMA CARREIRA XADREZÍSTICA NOTÁVEL E UMA FORMA ÚNICA DE ENCARAR O TABULEIRO DE XADREZ.
Gufeld, Taimanov, Gurevich, Ponomariov, Ivanchuk, Karjakin...
A Ucrânia desde há muito que sabe produzir as suas estrelas e os seus campeões mas, bem antes destes nomes, outros estudaram e trabalharam para que surgisse uma escola, um estilo e um método que permitisse alcançar o topo da elite mundial.
Bronstein é o primeiro desses expoentes a consegui-lo, não obstante o seu empate para o título mundial com Botvinnik em 1951 (que, nas palavras de Max Euwe, o tornaram co-campeão! - voltaremos aqui mais à frente), o actual site chessmetrics.com indica-o como o mais forte jogador mundial entre 1950 e 1953.
Este êxito não invalida que a sorte seja madrasta para estes predestinados: a Ucrânia nunca foi um local de eleição para nascer e, muito menos, nos princípios do séc XX!
Numa terra que durante eras foi explorada e votada ao ostracismo pelos Czares, Stalin impõe a sua lei de colectivização da produção, dizimando comunidades inteiras de agricultores.
As pessoas desaparecem das aldeias mas o mesmo não acontece aos campos de cereais, por isso as divisões blindadas de Hitler vão, no período de 2 anos, tentar garantir para si esse rendimento e, posteriormente, em fuga ao exército vermelho, deixar atrás de si a política da terra (literalmente) queimada...
Algum tempo antes deste cenário de apocalipse, a 19-02-1924, Bronstein nasce em Bila Tserkva, uma pequena cidade não muito longe de Kiev, numa comunidade judaica. Desse modo, explicará mais tarde, nunca se sentirá completamente russo nem completamente ucraniano.
Esta condição passa como um detalhe pelo substantivo que, desde sempre, marca a sua vida pessoal: A perda!
- Aos 13 anos perde a presença de seu pai, detido em casa na presença da sua família e deportado para um Gulag, com a acusação de incitar os seus colegas a exigirem tratamento justo na fábrica onde trabalham;
- Aos 16 é o mais jovem mestre internacional de sempre da URSS mas tem de fugir, a pé, da cidade onde vive (Kiev) agora atormentada pela guerra, perdendo a oportunidade de continuar os estudos e a carreira desportiva.
- Evita a participação directa na guerra devido à sua deficiente visão mas perde a capacidade de encarar os seus compatriotas em situação de igualdade: Ele sabe que é um dos poucos (estima-se 3%!) homens da sua geração a sobreviver ao conflito, por isso, sempre procurará, através da sua arte, justificar o desígnio que o permitiu manter vivo.
(«-Teve a sensação de ter vivido também pelos que morreram?»
«- Sim, eu sempre tive esse sentimento muito presente em mim.») (4)
- Mais tarde separa-se da sua primeira mulher e do seu filho, vindo posteriormente a enviuvar da segunda mulher;
- A profissão onde se realiza e à qual dedica toda a sua vida acaba por ser fonte de desilusão:
Sempre lhe ensinaram e acreditara que o xadrez era uma actividade nobre, respeitada e respeitável mas, mais tarde, após participar em torneios no Ocidente e após a queda de regime na URSS, verifica que tal só era exactamente assim na sua mente e no contexto artificial da sua antiga sociedade.
(Quando Spassky regressa, pela primeira vez, de uma competição no Ocidente - Paris, declara ao seu amigo: «Mentiram-nos, David. O xadrez não é tão importante como nos fizeram crer») (2)
Mas porquê voltar tanto ao passado da vida de alguém quando actualmente se pratica, ao nível de elite, talvez o melhor xadrez de sempre?
Talvez o leitor, por qualquer razão infeliz razão, nunca tenha tido contacto com a magia dos jogos de Bronstein.
Impõe-se talvez assim, antes de mais, superar um pouco dessa lacuna, embora nunca aprecie intercalar partidas nos textos que escrevo sobre xadrez, por achar que existe uma multiplicidade de fontes onde retirar essa informação.
De qualquer modo, quem o desejar, pode começar por ver um video de um dos seus jogos em
http://videosdeajedrez.blogspot.com/2007/03/la-pasin-del-ajedrez-cap-23-nikolay.html
deixando-se depois maravilhar com
http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1034661
e, se gostar, prosseguir com
http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1032210
http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1048987
http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1034323
terminando com um verdadeiro conto de fábulas narrado por Yasser Saraiwan em
http://www.chessbase.com/news/2006/bronstein01.wmv
Estaremos agora em melhores condições de prosseguir viagem em direcção a esse (antigo) admirável mundo novo, em que, por vezes, parece que as leis do xadrez mudaram e parece ser possível usar o tabuleiro como ferramenta para qualquer fantasia intelectual que se imagine.
Não é pois por acaso que no livro «Chess Improviser», de Boris Vainstein, a partida com Ljubojevic que está acima "linkada" possua o sub-título - «O direito de correr riscos»!
Com efeito, e como se viu na introdução deste texto, desde cedo Bronstein compreende que a sua única opção é correr riscos: Quer queira quer não, tudo à sua volta é éfemero, tudo o que lhe é mais próximo desaparece de um momento para o outro, portanto, só resta seguir em frente, correndo todos os riscos que haja para correr.
Ainda adolescente, imagina tornar-se um mestre consagrado para poder estar em condições de dirigir-se a Stalin pedindo a libertação do seu pai.
Com a evolução meteórica da sua carreira, cedo esta dose de ingenuidade vai-se misturando com aspectos mais prosaicos e com necessidades básicas da sua vida.
«Naquele tempo, na Rússia, precisávamos ganhar e jogar bem, por causa do apoio e incentivo governamental. O xadrez era um meio para viver melhor, a vida era muito díficil na altura.
Permaneci na Rússia durante a guerra, lembro-me tão bem, tão bem...passei muito mal!» (3)
Assim que termina a guerra, a esperada evolução na carreira surge de rompante, como se tivesse sido contida durante os anos de inactividade forçada:
- Em 1945 vence a semifinal do campeonato soviético, e consegue ser 3º na final, conquistando a 1ª norma de GM;
- Em 1946 vence o Camp. de Moscovo e obtem a 2ª norma, em 1947 é 6º no Camp. soviético e, em 1948, VENCE o interzonal obtendo a 3ª norma (é o mais jovem GM de sempre, à época) e VENCE o 16º Camp. soviético;
- Em 1949 conquista mais um Camp. soviético e, no ano seguinte, o Torneio de candidatos em Budapeste que, após um match de desempate com o seu já então amigo Isaac Boleslavsky, o apura para o match mundial com Botvinnik.
Desportivamente é uma carreira que atinge aqui o seu auge, ainda que mais tarde se viessem a seguir 5 campeonatos de Moscovo, 4 medalhas de ouro olímpicas, 8 medalhas em provas por equipas na URSS (representando o Dínamo de Moscovo, onde conviveu com Lev Yashin, o guarda-redes a quem Eusébio marcou um penalty no Mundial de 1966), entre ínumeros outros torneios onde conseguiu resultados equivalentes a quase 100 normas de GM!
Como se trata de um momento culminante, cumpre aqui salientar o que importa reter do match pelo título:
Importa reter que um jovem com uma imaginação e talento brilhantes igualou um match pelo título mundial, jogando de igual para igual e fazendo belas partidas contra um campeão consagrado e antecipadamente favorito pelos poderes instalados e instituidos.
Se houve algum factor extra xadrez a condicionar o resultado da 23ª e penultima partida do match, o qual liderava por um ponto mas ficou igualado após essa derrota, bem como após a subsequente 24ª partida, já muito se falou mas quase sempre sem critério.
Bronstein nunca rejeitou a possibilidade de ter sido campeão mas repetidamente assume que essa função não se enquadra de todo no seu perfil e na sua atitude perante a sociedade em que se insere.
Como assumir os compromissos inerentes a um campeão que se pretende exemplar segundo critérios com os quais não concorda?
Como participar em funções oficiais, cumprimentando políticos que despreza e representando hipócritamente um estado que o coloca à margem, começando pela situação do seu pai (já liberto na época mas ainda não reabilitado)?
Desde cedo sempre tentara ser um homem livre, vivendo segundo esse estado de espírito, apesar dos condicionalismos (as suas partidas refletem também exactamente isso, a vontade de jogar segundo padrões que não obedecem propriamente a uma norma ou a uma escola), deste modo, não pode deixar de sentir desprezo pela possibilidade de assumir responsabilidades que lhe imponham ainda mais dificuldades ao seu modo de vida descomprometido.
Não vence o título mas, ao contrário de outros, não lança a culpa desse facto sobre outras circunstâncias que não a si próprio: «Submeteram-me a uma forte pressão psicológica desde várias frentes e dependia inteiramente de mim deixar-me vencer ou não por essa pressão». (1)
Eis que portanto, nem que seja subconscientemente, e pelos motivos já referidos, acaba por ceder a essa pressão mas, não obstante o antagonismo (profissional) que sempre manterá com Botvinnik, reconhece que este é alheio a esse desfecho, dizendo mais tarde:
- «Fomos ambos dignos um do outro nas nossas ambições e nas nossas desilusões»; (5)
- «Senti que a maioria das pessoas queria que ele ganhasse e eu não queria desagradar...No entanto, é verdade, ele era um excelente jogador e fomos dignos um do outro» (3)
E quanto a Botvinnik, que disse ele sobre o assunto?
Quando, após uma noite de análises, a 23ª partida está prestes a ser retomada, Botvinnik confessa ao seu analista, Salo Flohr: «Sabes, o título está perdido, eu selei um lance diferente (da melhor continuação)...» (6)
Com efeito, o jogo reinicia-se não com a melhor continuação por parte de Botvinnik mas Bronstein também não exibe a melhor defesa perante esse lance e, a pouco e pouco, a posição irá piorando cada vez mais até terminar num zugzwang de dois cavalos contra dois bispos.
Este episódio revela que, se de facto existiu alguma conspiração pelo título, ela foi frágil e mal orquestrada, visto ter estado prestes a falhar e, por outro lado, Botvinnik não saberia de nada...
Na 24ª e última partida, cumprindo uma longa tradição em match pelo título, Botvinnik oferece empate quando tinha um peão a mais e possibilidades de jogar para a vitória, não deixando assim de honrar o seu adversário.
Daqui para a frente, o nome de Bronstein ficará associado ao epiteto de «ex-vice campeão mundial»,o que chega a revoltá-lo profundamente ao ponto de dizer: «Eu não sou 12-12 nem Zurique 53!*» (4)
*(Referência a que voltaremos de seguida)
São recorrentes os relatos de situações em que Bronstein reage mal ao "assédio" dos entusiastas de xadrez e do público em geral, recusando ceder autógrafos com o argumento de que as pessoas lêem um livro e ficam convencidas de que conhecem pessoalmente o seu autor, tendo direito a reclamar a sua atenção.
Essa superficialidade choca-o e, de qualque forma, a sua personalidade nunca permite que o seu ego xadrezístico apague ou disfarce as cicatrizes que o marcaram: Ele sabe que, para muita gente, mostrar apreço pelo jogador, pelo campeão, não é o mesmo que mostrar apreço ou reconhecimento pela pessoa.
«Quando vou a qualquer lado estão sempre à espera que de mim saiam lances geniais mas as coisas nem sempre podem acontecer assim.
Põe-me numa vitrine e mimam-me (como um animal de estimação) o mestre, o jogador, e esquecem-se que sou uma pessoa como eles, sou o David Brosntein que já passou grandes dificuldades, que o xadrez foi uma forma de lutar contra as adversidades.» (3)
Em 1953 participa no Torneio de Candidatos seguinte, em Zurique, prova sobre a qual escreve (em conjunto com Boris Vainstein) um livro com comentários das respectivas partidas, que se tornará no livro de xadrez mais vendido de sempre.
Este livro ilustra como as partidas de um torneio como este estão relacionadas, na medida em que, ao longo do mesmo, os participantes vão testando as suas novas ideias e as dos adversários, como se fosse um congresso de investigação entre os melhores talentos do mundo.
O texto é de estilo simples mas cuidadoso, revelando respeito não só pelo leitor que seja mestre como também por qualquer amador, por isso este último não se sente inferior ao autor na sua leitura e começa mesmo a acreditar ser possível alcançar o mesmo nível, partilhando com o autor as aventuras e as emoções que se desenrolam nos tabuleiros dos torneios magistrais - este é provavelmente a chave para o sucesso do livro, a cumplicidade psicológica com o leitor.
Aqui se compreende como, ao disputar cada uma das partidas de um torneio fechado, cada jogador é influenciado nas suas decisões ao não poder deixar de pensar na sua partida anterior, na partida que jogará seguidamente, na partida que o seu adversário fez antes e aquelas que os outros estão a fazer nesse momento, nos lugares de cada um na tabela classificativa, etc, etc.
«Ao escrever este livro» dirá Brosntein, «parti da premissa de que o xadrez representa uma obra artística que surge da batalha de ideias xadrezísticas» (1)
«Diz-se que foi o melhor torneio de xadrez de sempre, bem, o espírito era outro...» (3)
«Os comentários às partidas eram diferentes dos actuais, não indicavam lances específicos mas ajudavam a compreender a posição globalmente, a sentir a tensão do momento e os sentimentos dos protagonistas» (3)
Em termos desportivos sucede que as autoridades soviéticas temem particularmente o sucesso de um ocidental (Reshevsky) neste torneio, pelo que tratam de definir qual dos seus jogadores se encontrará em melhores condições para alcançar o primeiro lugar e a possibilidade de defrontar Botvinnik, decidindo-se por Smyslov.
Desta forma, são fornecidas indicações a Bronstein e a Keres para não vencerem os seus jogos com Smyslov, o qual vem efectivamente a vencer.
Brosntein é segundo, com apenas duas derrotas, a dois pontos do primeiro, tal como Keres e Reshvesky, embora com quatro derrotas cada - mais uma vez se cumprem os desígnios do poder soviético. Por sua vez, Bronstein evita o ressurgir dos seus dilemas psicológicos resultantes de um novo match com Botvinnik e todos parecem ficar minimamente satisfeitos.
Na realidade, jamais Bronstein voltará a possuir um lugar tão proeminente na mais estreita elite do xadrez competitivo:
A partir deste momento as autoridades governamentais começam a restringir-lhe cada vez mais o acesso a grandes torneios fora das fronteiras soviéticas. Em consequência, o seu rating começa lentamente a descer o que, por sua vez, se transforma num pretexto para não autorizar a sua participação em grandes eventos.
O embaraço que representa fica definitivamente resolvido com a sua recusa em assinar a carta de condenação à fuga de Korchnoy para o exílio: Se Korchnoy não poderá mais voltar à URSS, Bronstein não poderá mais de lá sair para um país externo ao bloco soviético.
Como veremos, este facto pouca importância terá para o legado que nos irá deixar.
A profunda remodelação que, em conjunto com Boleslavsky e Konstantinopolski, tinha já operado na defesa India de Rei, permitiu que a mesma se transformasse numa poderosa arma durante toda a década de 1950, até que, mais tarde, Tal, Fischer e Kasparov continuaram a sua evolução.
O lance 5.Db3 contra a Grunfeld, as melhorias que fez na Caro-Kahn e na Siciliana de brancas, bem como a nova vida que conferiu ao Gambito de Rei (onde tudo já tinha sido antes inventado), entre inúmeros exemplos, tudo isso são apenas algumas faces visíveis, alguns corolários, de uma carreira onde a imaginação, a arte, a técnica e o fair-play sempre falaram mais alto.
E não foi assim por acaso...
De acordo com suas próprias palavras:
«Quando iniciei a minha carreira no xadrez, toda a gente se impressionava com as maravilhosas combinações que estavam contidas em velhos livros de xadrez, pelo que o nosso prinicpal interesse no jogo consistia em criar algo no tabuleiro que se assemelhasse a uma espécie de luta espiritual em cooperação com o adversário» (1)
«Sempre procurei divertir o público. Quando comecei a jogar procurava que o meu jogo fosse atractivo tanto para os espectadores como para os adversários.
Além disso, ao jogar o campeonato de Moscovo, recebiamos uma ajuda de três rublos para alimentação. Que restava então? Jogar bem e alegremente para divertir e nos divertirmos» (2)
«Antigamente, na Rússia, as pessoas jogavam, basicamente, dentro da sua comunidade para confraternizarem - isso é o mais importante!» (3)
Em conjunto com esta formação, o seu carácter e sua personalidade moldam as suas atitudes perante a competição e também o seu estilo de jogo:
«Não posso estar de acordo com a ideia de fomentar uma atitude de hostilidade para com o adversário, com base de assim ser mais fácil vencê-lo. Desde logo, gosto, como qualquer outro jogador, de jogar para ganhar e fico muito satisfeito se o consigo por meio da lógica, da fantasia, dos conhecimentos e, por vezes, o cálculo profundo.
Mas cultivar ódio pelo adversário e sacrificar a paz interior para conseguir um ponto num torneio, isso significa um epobrecimento do xadrez» (1)
«Actualmente, para muita gente, o xadrez é um meio para vencer algo, para se superiorizarem vaidosamente. Para mim o xadrez não é isso. Quando se vence um jogo é o nosso rei que vence o seu homónimo e não se trata de nós vencermos o adversário - tudo se passa dentro do tabuleiro, de onde a rivalidade não deve sair» (3)
Por outro lado, para além desta atitude, Bronstein apreciava frequentemente homenagear os seus adversários ou brincar com eles, escolhendo, por ex., jogar aberturas relacionadas com os seus países de origem ou jogando as variantes preferidas deles, apenas tentando demonstrar que há sempre algo mais para descobrir em cada posição
(este foi o exemplo de caso relatado por Saraiwan no link do início, onde o seu oponente deve ter tido algumas insónias ao lembrar-se que foi vencido por um homem (à época) com 66 anos, numa variante em que era um dos maiores especialistas mundiais! Para um profissional deve ter sido dramático mas, pelo menos, talvez se tenha tornado num jogador mais completo).
Tudo o que alguém é se reflete, de alguma forma, no tabuleiro e, deste modo, nos seus jogos e na sua carreira estão também características únicas que os seus amigos/familiares assim definiram:
«Nunca conheci um ser humano tão aberto para o bem e tão indefeso perante a iniquidade, a qual, mais do que seria desejável, esteve presente na sua vida de todas as formas», refere Tatiana Boleslavskaya, sua 3ª e última mulher (1)
ou
«A sua bondade inata torna-o extremamente vulnerável aos choques psicológicos: uma falta de ética pode causar-lhe um estado de comoção e, da mesma forma, não suporta a descortesia», adianta Tom Furstenberg (1)
É a escrever como comentador de xadrez para o diário estatal «Izvestia» que vê chegar os dias em que o liberalismo de Gorbatchov lhe permite novamente levar o seu xadrez a novos horizontes.
Apesar de na época contar já cerca de 62 anos, a sua condição física permite-lhe viajar sem limitações e as suas aptidões mantém-se em grande forma, denotando até inclusivamente, como veremos, traços associados a alguma juventude!
Com efeito, é ele que já anteriormente se tinha manifestado desfavorável à existência de adiamentos nas partidas. Considerava que essa possibilidade amputava o jogo da sua fase mais autêntica, mais criativa, na medida em que se já estava suficientemente longe da abertura e das suas derivações para ser necessário pensar pela própria cabeça.
Para ele, um qualquer grande mestre seria apenas um jogador muito bom na abertura, devido à sua experiência e conhecimentos, mas essa vantagem iria se perdendo à medida que as peças vão desaparecendo com o evoluir da partida, já que se torna mais difícil manter a posição sob controlo e surge a necessidade de ser criativo, de improvisar.
É nesta fase de jogo que frequentemente surgia o adiamento, introduzindo a possibilidade de efectuar análises de laboratório, com ou sem colaboradores, desvirtuando (segundo o seu ponto de vista) a partida.
Como sabemos, a alteração dos ritmos de jogo e o advento do computador veio simplesmente colocar um ponto final neste debate ao suprimir todo e qualquer adiamento: De uma forma ou de outra, a sua tese prevaleceu!
Computadores e ritmos de jogo, que são precisamente excelentes temas para as referências que se seguem...
Pelos inúmeros locais que cruza então (Bélgica, Holanda, Inglaterra, Espanha, Islândia, Estados Unidos, etc) quer jogando, dando palestras, conferências, treino, formação, etc, etc, imensa gente fica surpreendida por redescobrir o brilhante jogador que tinham conhecido 30 anos antes ou, no caso dos mais jovens, deixando-se maravilhar por um xadrez diferente.
Ficariam célebres as exibições de Bronstein contra os melhores programas informáticos da época, vencendo-os quase invariavelmente, numa altura em que os próprios jogadores de topo (30 ou 40 anos mais jovens) já tinham dificuldades em igualar um match contra as máquinas.
Melhor do que ninguém, ele soube interpretar as poucas fraquezas que os programas ainda apresentavam (tais como a falta de plano em situações igualadas ou falhas na avaliação posicional por ex.) para explorar isso a seu favor e fazer demonstrações espectaculares, como estas que se seguem:
http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1079017
http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1238112
Foi também bem cedo que Bronstein declarou que ninguém deveria deixar de ganhar uma partida por falta de tempo e assim, em 1973, propõe, na coluna do jornal para onde escreve - ainda o «Izvestia», a criação de um relógio que incremente tempo por cada lance efectuado!
Vemos pois que a ideia de Fischer surgida no princípio dos anos 90, e que se aplica actualmente nos relógios com que todos jogamos, já tinha antecedentes...aliás como o próprio xadrez «FischerRandom», que já tinha sido utilizado por aquela altura, e por sugestão de Bronstein, num match entre Arthur Bisguier e Paul Benko.
Voltando ao relógio, acessório fundamental à modalidade desde finais do séc. XIX, ele é criado originalmente para medir uma grandeza absoluta que, mais tarde, Einstein demonstrará ser um conceito incorrecto.
Também no xadrez Bronstein crê ser o tempo utilizado numa partida um conceito relativo, não sendo necessariamente precisas duas ou mais horas para fazer um jogo melhor do que em 20 ou 30 minutos.
Diz-nos a este respeito:
«Há muitos anos comecei a anotar quanto tempo demorava a executar cada um dos meus movimentos e, mais tarde, analisei a relação entre a qualidade dos lances e a velocidade com que forma feitos. Descobri que geralmente se joga melhor quando se segue a intuição».(4)
Ele acredita que cada lance isoladamente não transmite riqueza de pensamento, não traduz nada em absoluto, é apenas o resultado de uma série de calculos executados sobre uma posição concreta, com a influência de prévios conhecimentos teóricos.
Já uma sequência de jogadas é algo bem diferente, representa um plano. E o que é um plano?
«Quando alguém joga rapidamente, é possível ver-se de imediato o que pensa: As ideias materializam-se de imediato no tabuleiro e pode-se observar como se trocam com rapidez uma série de jogadas, à semelhança de pugilistas que não desferem golpes isolados mas sim séries de golpes.
É extranho pensar demasiado numa só jogada, as pessoas pensam por esquemas, não por jogadas individuais» (1)
«O estudo exaustivo das aberturas tornou mais difícil atingir as posições correspondentes à fase mais criativa de uma partida mas, quando se dispõe apenas de 30 segundos por lance, o jogo converte-se num espectáculo realmente emocionante, uma autêntica batalha entre dois intelectos. Nesta fase há que arriscar, improvisar e executar os esquemas mais fantasiosos no tabuleiro». (1)
Esta tese possui uma síntese sublime na lapidar observação de Bronstein: «Em apuros de tempo cada jogador actua de acordo com a sua inclinação, capacidade e talento - os que gostam de combinações confiam nelas, os que têm fé nas suas capacidades defensivas, defendem-se, e os que crêem nos valores materiais capturam peões» (2)
Complementam esta ideia as palavras de António Gude:
«Com bastante tempo de reflexão a intuição deteriora-se, a imaginação anula-se ao não receber estímulos adequados e a capacidade de assumir riscos fica irremediavelmente perdida» (2)
Válida ou não, esta tese tem sido sistemáticamente colocada à prova nos últimos tempos: Não obstante todo o mérito inerente aos ritmos lentos de jogo, os torneios de semirápidas são porventura os únicos cuja popularidade aumentou nos últimos anos e aqueles que, por vezes, conseguem reuniar mais audiências, especialmente...nos apuros de tempo!
Poderá pensar-se que esta atitude algo descontraída é contraditória com a sua lendária forma de abordar o início de uma partida, em que, frequentemente, demorava 15 minutos para efectuar o 1º lance e, uma vez, mais de 30!...
Eis, nas suas palavras, a explicação para esse estranho fenómeno, a qual é no fundo um concelho prático para todos e que pessoalmente considero muito útil:
«Esse tempo é somente para me acalmar. Quando se entra numa sala de torneio existe sempre muita agitação, imensa gente que nos quer cumprimentar e, ao sentar-me, demoro sempre algum tempo a mentalizar-me para jogar, às vezes 5 min., às vezes 10 min., às vezes 30 min. mas, nesse caso, eu estava também a pensar que rumo o jogo iria ter, que variante o adversário poderia jogar e se eu estava na disposição para entrar nessa linha...Mas, assim que me decidi, joguei depois relativamente rápido» (4)
A questão do xadrez como desporto-espéctaculo foi também considerada por Bronstein que idealizava exibições de ritmos rápidos e de vários jogos em simultaneo com o mesmo adversário!
A razão de utilizar ritmos rápidos já a analisámos, agora em relação aos jogos simultaneos:
«A resolução de um match a uma ou duas partidas não elimina a limitação fundamental do xadrez claássico, a paralização que os jogadores sentem pela elevada responsabilidade que sentem em fazer cada lance» (1)
«Numa única partida não há possibilidade para conhecer o estilo e a personalidade do adversário e jogar em conformidade com isso desde o 1º lance, ao contrário do ténis por ex.,onde os primeiros pontos podem servir para esse efeito, mas não em xadrez, onde tudo é decisivo desde o início.» (3)
Boris Vainstein é o homem que acolheu Brosnstein na sua casa de Moscovo em 1945 e o faz ingressar no clube Dínamo, sendo seu amigo toda a vida e também, durante muito tempo, seu assistente, embora não possuisse dotes especiais para a modalidade: Conta-se que certa vez Nadjdorf terá comentado, em tom de brincadeira, que Bronstein tinha um assistente que dava uma peça em cada partida de rápidas!
É dele a antevisão de como será o xadrez do futuro, em contraponto ao xadrez profissional actual, onde apenas merecem consideração os pontos obtidos no quadro classificativo de um torneio e quem ganhará o maior prémio em dinheiro.
(A este respeito, Bronstein gostava de parafrasear o antigo Xá do Irão que, ao ser convidado para assitir a uma prestigiosa corrida de cavalos durante a sua visita a Inglaterra, optou por responder: «Assitir a uma corrida para quê? Eu já sei que um cavalo é mais veloz que outro!»)
Vainstein partilha da visão de Bronstein de que, no futuro,
«predominará a vertente artística do xadrez, favorecendo a percepção dos torneios como espectáculos, tanto para profissionais como para amadores.
No séc XXI veremos o renascimento do culto à beleza no xadrez, o qual se desenvolverá para converter-se num jogo mais humano, enquanto, ao mesmo tempo, diluir-se-ão os sentimentos de animosidade entre os jogadores.
Será somente então que as partidas mais famosas de Bronstein brilharão como gemas e serão consideradas entre os exemplos máximos de estética xadrezística». (1)
Ao longo de todo este texto evitei sistematicamente empregar a palavra «génio» ao referir-me a Bronstein, já que ele, na entrevista que concede a António Gude, afirma: «Não diga que sou um génio nem coisas desse género: Diga simplesmente que entendia a lógica do xadrez e com isso me terá defenido perfeitamente» (2)
Um lógica tão simples como «jogar com intuição e fazer os lances que acreditamos serem bons, deste modo o xadrez é, acima de tudo, arte, estética, isso é a sua essência e a sua alma, não apurados cálculos matemáticos» (3).
É esta personalidade singular que, numa das suas últimas viagens pelo mundo, chega a Lisboa em Novembro de 1997, como personalidade convidada do II Festival de Xadrez Cidade de Lisboa.
Naquela altura, o seu nome era para mim já uma lenda, apesar de o meu conhecimento sobre ele se resumir às partidas e ao conteúdo de dois dos seus livros, «The Modern Chess Self-Tutor» e, pricipalmente, «Chess Improviser» de Boris Vainstein.
Não é frequente exitirem oportunidades de contactarmos directamente com os nossos mitos, de modo que comentei com colegas de clube a intenção de me dirigir às instalações onde decorria o festival, antes do torneio aberto que se iria realizar, para tentar conhecer aquele convidado de honra, obter um autógrafo, etc.
Um desses colegas advertiu-me de que tal missão talvez não fosse fácil, tendo em conta talvez, histórias anteriores, já mencionadas antes, de pouca disponibilidade para contactos com o público.
De qualquer forma, considerando a oportunidade única, é com alguma expectativa que me dirigo ao edifício da antiga Cordoaria Nacional, na zona de Belém, onde decorre o 1º dia do citado festival. É o dia 16-11-1997.
Estamos a meio da manhã e não existe muito movimento nas salas algo frias e impessoais onde, no dia seguinte, terá início o torneio de semi-rápidas que captará mais entusiastas.
Algumas mesas estão ocupadas com alguns jovens que se distraem fazendo uns lances ou conversando entre si.
Deambulando calmamente por entre as várias mesas surge a figura de um homem idoso, calvo, de sobretudo e óculos expessos.
Chamou-me a atenção porque, podendo eu afirmar que conhecia 95% dos jogadores da cidade naquela faixa etária, não reconheci quem fosse.
Imaginei que pudesse ser Bronstein mas pareceu-me inverossímel que uma figura tão proeminente em conteúdo e simbolismo pudesse se encontrar assim, vagueando sem objectivo e sem companhia e, pior, sem sequer ser reconhecido por quem estava nas mesas empurrando umas peças.
No entanto, como eu efectivamente não o reconhecia de entre o círculo local de jogadores e como a sua aparência condizia com a personagem que procurava, aproveitando aquele momento desocupado, arrisquei a seguinte abordagem:
«Excuse me, are you Mr. Bronstein?», obtendo como resposta «Yes, I am!»
Obviamente que comecei por lhe dizer de imediato o quanto apreciava os seus jogos e a sua carreira, manifestando também interesse em obter um autógrafo, se ele assim o entendesse.
Respondeu-me que, se o fizesse, me estragaria o livro, pelo que declarou preferir não o fazer!
É evidente que entendi desde logo a sua recusa diplomática mas, mesmo assim, tive a imediata noção de que aquele era um momento único, pelo que continuámos a conversar, sempre em inglês, por sugestão minha, dado que ele tinha afirmado ser-lhe indiferente usar esse idioma ou o espanhol.
Comecei a mostrar-lhe o livro através do qual desenvolvi a paixão pelo xadrez e pelo seu estilo de jogo, «Chess Improviser».
Ao olhar para a sua capa, uma versão inglesa do original russo, referiu que aquele livro não era suposto ter aquele título (O improvisador de xadrez) mas sim «Xadrez Improvisado» (Improvised Chess), como no original em russo.
Perguntou-me igualmente porque razão possuia eu um exemplar policopiado e não um livro original, ao que eu respondi (sem andar longe da verdade) que os bons livros de xadrez em Portugal eram caros e difíceis de encontrar.
Não pude então deixar de me sentir algo embaraçado por ter solicitado um autógrafo para um livro que era uma cópia, só que aquele era O livro e aquelas eram AS páginas que me tinham feito estar naquele local, naquele dia.
Bronstein talvez se tenha apercebido disso, quando, em conjunto comigo, foi folheando essas páginas cheias de sublinhados e comentários meus feitos a lapizeira 10 anos antes, enquanto eu lhe ia descrevendo a forma como via essas partidas e o que senti ao reproduzi-las...
Não sei se foram essas páginas que lhe demonstraram o meu interesse, se terão sido os temas que abordei, ou se terá ficado surpreendido pelo facto de, num canto da Europa, alguem relativamente muito mais jovem o reconhecer tão bem, o que é certo é que Bronstein começou a mostrar entusiasmo genuíno pela nossa conversa, os seus olhos passaram a brilhar de outro modo e passou a esboçar alguns sorrisos com frequência.
Durante cerca de 1 hora falámos sobre xadrez e sobre múltiplos assuntos, tendo alguns extratos dessa conversa sido referidos no texto anterior com a indicação (3).
Levantámo-nos das cadeiras e circulámos por entre as mesas, tendo-me perguntado a dado momento:
«Diga-me, o que acha de de todos estes jovens a jogar?»
Balbuciei hesitante: «Bem, eles são todos muito novos...»
- «Pois, é que hoje toda a gente quer jogar! Isso é bom, claro, só que antigamente havia muita gente apenas a observar e a comentar as partidas dos grandes torneios, talvez isso ajudasse as pessoas a interiorizarem e a aprofundarem mais o xadrez».
Aproximámo-nos seguidamente da extensa bancada de livros para venda, ocorrendo então alguns desabafos:
«Faz-se um erro uma vez (numa partida) e vêmo-lo publicado em todos os lados durante os seguintes 50 anos! Em mais nenhuma outra profissão os nossos erros são assim expostos, torna-se cruel...»
«Hoje em dia há imensos torneios todas as semanas. Os jogadores jogam de forma semelhante em todos eles mas, se algum correr mal, já sabem que terão outra oportunidade daí a pouco tempo. Antigamente havia um ou dois grandes torneios num ano - não se podia falhar!...»
(Acerca de uma imagem da familía Romanov na capa de um livro exposto):
«Ah, os Romanov...Agora todos têm pena deles mas, naquela época, morreram milhões de pobres às suas mãos...A guerra de 1905 com o Japão foi desastrosa e ninguém os julgou por isso.
É claro, está mal, não se devem matar as pessoas, isso é terrível, mas havia muito sofrimento...Você sabia que no final do séc XIX ainda havia escravatura na Rússia?
O Czar detinha as pessoas como sua propriedade e enviá-vas para onde lhe apetecesse. Eu podia ter um tio num local, um avô noutro, as famílias eram separadas sem qualquer escrúpulo.
Nunca pensei ter uma vida de andar assim pelo mundo, França, América, etc, isso naquele tempo era impensável, até mesmo há poucos anos! Agora há aviões rápidos e mais baratos, cartões Visa, etc...
Mas nunca me reconheceram valor...»
Retorqui - «Mas você é estimado no mundo Ocidental...», obtendo a pragmática resposta «Talvez, mas sobrevivo com uma fraca pensão do estado russo...»
Antevendo a conclusão daquele breve encontro, insisti que, em todo o caso, gostaria de ter o tal autógrafo que assinalasse aquele dia e surge então a minha vez de ser surpreendido:
Bronstein pergunta-me que livro ou livros eu quero que ele assine e que texto gostaria eu que ele escrevesse!
Ponho sobre as bancadas a tal cópia do «Chess Improviser» e digo-lhe que, evidentemente, ele poderia lá escrever o que entendesse...
Eis que surge então, numa letra de imprensa alinhada e cristalina, não um autógrafo mas sim uma dedicatória!
Ao conclui-la, ele interroga-se como classificar aquela pessoa que acaba de conhecer...afirma então «Bem, já falámos cerca de uma hora, já nos conhecemos razoavelmente, acho que lhe posso chamar meu amigo»!
Percebo então toda aquela relutância inicial em assinar o que quer que seja, uma assinatura sua não eram uma letras atiradas ao vento, eram sim palavras que saíam da sua alma dirigidas (apenas e só) ao coração de quem considerava amigo...
Pergunta-me ainda em que alfabeto prefiro a sua assinatura?!...Fico mesmo desconcertado e, ao que me lembre, sem resposta ...ele decide assinar no alfabeto latino e também em cirílico.
De passagem, assina também o meu exemplar de «The Modern Chess Self- Tutor».
Estamos prestes a despedir-mo-nos quando João Pereira, o coordenador do Festival, vem chamá-lo à atenção para um compromisso a realizar em breve, respondendo-lhe Bronstein: «Mucho mi ay gustado hablar con este aficcionado...», sob o olhar algo preplexo de João Pereira...
Um pouco mais tarde, já fora do edifício, junto à margem do Tejo e sob um sol de Outono fraco mas brilhante, dirigo-me ao meu carro quando, ao atravessar uma rua, ouço alguém chamar por um nome igual ao meu.
Ao acabar de atravessar, olho instintivamente para trás, com a certeza de que o apelo não se refere a mim:
Nada mais errado, é Bronstein quem se encontra do outro lado da rua chamando o meu nome!
O que quererá ele? Volto atrás para ouvi-lo perguntar qual a minha morada e nº de telefone...
Anoto o que me pede num pequeno bloco de notas que transporta consigo.
Quem diria que a sua relutância inicial em conceder um simples autógrafo poderia transfigurar-se em tal entusiasmo?
Talvez mais tarde o jornalista holandês Dirk Jan Ten Geuzendam pudesse tê-lo previsto, uma vez que, quando visitou o apartamento de Bronstein em Moscovo em 2001, observou aí folhas com centenas de dados relativos a xadrezístas com quem o Grande Mestre se tinha cruzado nas suas viagens: Estaria lá, com certeza, aquele mesmo bloco de notas...
Ainda anestesiado por toda a nossa conversa, mas prevendo que, futuramente, muito do que tinha ouvido pudesse ficar esquecido, no(s) dia(s) imediato(s) tratei de transcrever para papel tudo o que me fosse possível relembrar, sendo o resultado sete páginas A5 com o nosso diálogo, de onde foram extraídas as frases referenciadas neste texto com (3).
No dia seguinte ocorreu um torneio de semi-rápidas em que ambos participámos. No final fico atrás dele 1 ponto ou 1 ponto e meio, nunca tendo portanto a possibilidade de ter sido emparceirado com ele.
Nesse torneio, um jogador da minha geração, Paulo Pinho, tem um desempenho fantástico, termina em 8º e é o primeiro dos não títulados, deixando muitos outros para trás, incluíndo Bronstein, a quem vence a poucas rondas do fim.
Lembro-me de o ouvir contar-me como correu esse jogo e de sentir alguma tristeza por não poder, eu próprio, contar um dia uma história semelhante, não a história de uma vitória sobre Bronstein mas sim a história de um dia ter partilhado planos e emoções com alguém que foi indubitavelmente, para mim e muitos mais, um ídolo na arte de jogar xadrez.
Ao analisar a sua vida e as suas declarações, talvez mesmo as que constam neste texto, se possam encontrar muitas incongruências ou contradições, porém, como refere a respeito Sergey Voronkov, Bronstein poderia parafrasear Lev Tolstoi quando confrontado com semelhante acusação:
««Não sou um papagaio que repete as mesmas coisas toda a vida!"».
«Quem busca a última verdade frequentemente se chega a contradizer.» (1)
Não foi por sua causa que comecei a jogar xadrez mas, quase de certeza, deve-se a si o facto de o ter continuado a fazer durante os últimos 20 anos.
As palavras que escrevi ao longo de todo este texto não pretenderam ser somente um tributo à sua vida e obra, pretenderam também, de certa forma, demonstrar-lhe que as palavras que me dirigiu na dedicatória não foram vãs: Naquele dia em Lisboa, Brosnstein conquistou, de facto, mais um amigo...
António Castanheira, Dezembro 2007
Origens das referências assinaladas ao longo do texto:
(1) - «Aprendiz de Brujo» de David Bronstein e Tom Furstenberg, versão espanhola da edição original em inglês «The Sorcerer´s Apprentice», traduzida por Kean David Heines e Fernando Perez Ramos, Ed. Paidotribo, Barcelona.
(2) - Reportagem realizada por Antonio Gude para o nº 443 da revista «Jaque», publicada em Fevereiro de 1997.
(3) - Excertos da conversação mantida comigo próprio a 16-11-1997, em Lisboa, por ocasião da edição do IIº Festival de Xadrez da cidade.
(4) - Entrevista concedida ao jornalista holandes Dirk Jan Ten Geuzandam em 2001, em Moscovo.
(5) - «David Bronstein-Chess Improviser», de Boris Vainstein, Ed. Pergamon Press.
(6) - Artigo da Chessbase.com de 10-05-2003, acerca do match Botvinnik-Bronstein, citando Genna Sosonko na revista «New in Chess». http://www.chessbase.com/newsdetail.asp?newsid=946
Editado pela última vez por António Castanheira em Qua Abr 16, 2008 13:48, num total de 1 vez |
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Xequemate Site Admin

Registo: 27 Abr 2006 Mensagens: 259 Local/Origem: Alpiarça/Santarém
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Colocada: Qua Dez 05, 2007 21:57 Assunto: |
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Castanheira, abriste o livro ! Brilhante este pequeno texto.
Li há pouco tempo "A guerra de Bobby Fischer" e nem de perto nem de longe senti o mesmo gosto de devorar palavra por palavra o fluir do texto.
Disse que o texto foi pequeno porque, quem me dera que tivesse umas 200 páginas de Castanheira e de David Bronstein. Só um comentário: Texto excelente do "novo" Lusoxadrez !
Parabéns
Abraço
António Russo |
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tbp
Registo: 27 Abr 2006 Mensagens: 74
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Colocada: Qua Dez 05, 2007 22:20 Assunto: |
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Que texto bestial!
Obrigado. |
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Arlindo Rodrigues Vieira Site Admin
Registo: 09 Jan 2007 Mensagens: 10
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Colocada: Qua Dez 05, 2007 23:43 Assunto: Que Dizer?! |
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AMIGO CASTANHEIRA… O Russo disse e eu redigo: Excelente! Fabuloso!
Dizer o quê ? Lembras-te do Pessoa de “O Poeta é um fingidor” ? Tu finges completamente a emoção, e emoção que deveres sentes! E, eu sei o que isso é! Como estas coisas bailam cá dentro semanas, meses. Inquietam-nos, fazem-nos duvidar: escrever para quê, para quem? Porquê? Depois, insidiosamente tomam-nos de assalto, vão-nos preenchendo espaços de pensamentos em mesas de café, ou escritório de madrugadas, quando não em passeios ou estradas pouco propícias a peões sonhadores xadrezistas. E não nos largam e obrigam-nos a horas de pesquisa, leitura, de burilamento de ideias e texto. Para quê? Porquê? Para quem? Quem se vai emocionar com o que escreveste? Que registo na alma xadrezista dos xadrezistas este texto vai ter? Quem vai a correr depois de te ler, procurar a edição recente do Chess Improviser , ou em alfarrábio Web, a belíssima da Pergamon Chess, ( Sabias que o Spraggett, considera este livro, um dos maiores de todos os tempos!?), quem vai estudar essa jóia que é o «Aprendiz de Brujo» de David Bronstein e Tom Furstenberg, e deliciar-se com o amor incondicional deste Homem ao Xadrez, com o respeito pelos seus adversários, com o prazer de dialogar e escrever para os “amadores” de xadrez? Quem? Talvez rever umas partidas de Zurique 53, já não estivesse o teu artigo “perdido”. Sabes, mas um dos maiores elogios que recebi na minha vida xadrezística na Luso Xadrez, foi quando do meu artigo sobre o Spielmann, alguém de Coimbra (desculpem a memória) escreveu que ia vender a “Arte do Sacrifício”, mas que depois do meu artigo, ia guardá-lo quem nem tesouro!
Guardar o teu artigo, entesourar o teu Bronstein, porque no xadrez, vai-me escasseando a emoção, o bom da sensibilidade xadrezista, na proporção da abundância da náusea, do oportunismo, do xadrez tacanho “à la lettre”! E isto emocionou-me, embora já conhecesse em parte o teu Bronstein, de longas e amigas conversas “maileiras” vai para anos! Um Bronstein, férreo e frágil ao mesmo tempo, um Homem castigado e abençoado pela vida, um Homem que colocou o xadrez na perspectiva humanista e cultural, que tão arredio anda do xadrez actual. Um Bronstein, quase amigo, ali, aqui ao nosso lado, de guardar no bolso coração qual caixinha de música! Musical e Sereno o teu Bronstein, Improvisador, mágico, e sobretudo Homem, por verdadeiro que foi Bronstein. O Teu Bronstein , que foi, era ele, mesmo que o não tenha sido, foi-o através da tua escrita! E li relativamente pouca coisa, na morte deste Homem, em comparação com a sua grandeza xadrezística e, conheço o elogio do Kasparov no “ Meus Grandes Antecessores”, embora tímido e em registo inferior às laudas a Botvinnik, e vi o vídeo do Seirawan, e conheço o artigo do Sosonko na New in Chess, e fui , sou um admirador incondicional do Bronstein, e afirmo que raramente vi escrito artigo de tanto nível como esta evocação etérea, terna, quase sussurro ao vento, que é o teu escrito.
A comoção não se diz, nem se transmite pelos dedos mais ou menos ágeis num teclado. Conheci o Teu Bronstein, tive por breves minutos com Ele, observei-vos os dois ao longe, não com inveja, mas menino fascinado, percebi nestes momentos o que era a amizade xadrezista e bem educado como sou, amigo não empata amigo…recolho-me ao silêncio de mim, com a imagem do Teu Bronstein por música de fundo. E neste preciso momento coloco o meu melhor Staunton ( uma replica das peças do match Fisher-Spassky - as mesmas que o Bronstein adorava e era o seu jogo preferido) no meu melhor tabuleiro, abro o meu “Chess Improviser”da Pergamon Chess, na página 65 e vou como oração ver “A Viking’s Saga” , essa excepcional partida com Larsen do Interzonal de Amsterdão de 1964. Como homenagem ao Bronntein e ao Castanheira!
Ah! Tenho como penitência carradas de aves-marias e padres-nossos, porque simplesmente ainda não comprei o “Secret Notes” que escreveu com Voronkov!
E não é que senti o “Devik” a rir-se lá do alto do Reino de Caissa? Mais, manda-te um abraço Castanheira! Não é que levou o bloco de notas com Ele!
Um meu, dos grandes, porque caro Amigo Castanheira: ÉS UM SENHOR!
E já agora, porque és um terrível desafiador d’almas aí vai uma surpresa! Falaste no original Russo do Vainstein “ Xadrez Improvisado” …Bem, eu tenho! Então aí vai! E mais qualquer coisinha rara.
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